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sábado, 3 de novembro de 2012

Que a Força Esteja com a Disney


Essa semana uma notícia pegou muitas pessoas de surpresa, a compra da Lucasfilm pela Disney e com isso a aquisição dos direitos da série "Star Wars", maior franquia da companhia fundada por George Lucas nos anos 70 e além disso o estúdio do Mickey Mouse anunciou a produção de "Star Wars" episódios VII, VIII e IX iniciando com um filme já em 2015. Isso já foi motivo para manifestações de fãs descontentes (e quando os fãs de Star Wars estão contentes?) e temerosos em todas as redes sociais, com mensagens absurdas e engraçadíssimas de que a Disney lançaria um músical de Star Wars ou versões fofas dos filmes da série, enfim o nonsense reinou durante a semana, mas vamos aos fatos:


Após a fusão com a Pixar e a compra da Marvel, a Walt Disney Company se firma como o maior conglomerado de entretenimento do mundo, além da Walt Disney Pictures e suas subsidiárias,  ela é dona também da rede ABC de "Lost", da ESPN e A+E Networks entre outras companhias e a compra da Lucasfilm por 4 bilhões representa um grande passo para o estúdio, que além dos filmes de animação e das franquias "Piratas do Caribe" e "Os Vingadores" adquire uma das maiores e mais poderosas marcas da história de Hollywood, "Star Wars", cujo o universo ficcional vai além dos filmes de cinema e se desdobra em desenhos, games, livros e diversas mídias e já gerou bilhões de dólares no mundo todo. 


De acordo com o próprio Lucas, ele sempre achou que a série ia além dos filmes que ele já fez e que chegaria o dia em que uma nova geração de cineastas e artistas tomaria conta da sua criação, na verdade com a venda, Lucas que já está com 68 anos garantiu a continuidade, não só da franquia, mas como de todos os negócios iniciados por ele, afinal ele já tem falado em aposentadoria desde 2005 quando estreou o então último episódio de "Star Wars", "A Vingança dos Sith", e devido às duras críticas que recebeu durante a produção da nova trilogia entre 1999 e 2005 e também por seu envolvimento na produção de "Indiana Jones e O Reino da Caveira de Cristal", que também recebeu duras críticas de fãs mais exaltados, o levou a considerar tal decisão, afinal ele começou a carreira querendo ser um cineasta independente e não um homem de negócios. Além disso com a compra, a Disney adquiriu a Industrial Light & Magic e a Skywalker Sound, duas das maiores empresas do mundo que lidam com pós produção, a ILM além de "Star Wars", foi responsável por outros filmes que mudaram a história do cinema, como "O Exterminador do Futuro 2- O Julgamento Final", "Jurassic Park", "Forrest Gump", além de grandes séries como "Piratas do Caribe", "Transformers" e "Harry Potter" e a Skywalker Sound revolucionou a criação e desenvolvimento de sistemas e efeitos de som feito para o mercado cinematográfico, principalmente com o sistema THX. Na verdade o processo de compra se inciou em Maio de 2011, após um encontro de George Lucas com o Presidente da Disney, Bob Iger, durante a inauguração de "Star Tours: The Adventure Continues" uma atração da Disney World e se estendeu por mais de um ano até o anúncio feito essa semana.





O primeiro grande passo dado pela Disney foi o anúncio de uma nova trilogia da série "Star Wars" com Lucas como consultor e Kathleen Kennedy, produtora de diversos filmes de Steven Spielberg e que trabalhou com ambos no último "Indiana Jones", como produtora geral da série, cargo que na última trilogia ficou a cargo de Rick McCallum. A história não seria baseada em nenhum dos livros que deram continuidade as aventuras de Luke Skywalker, Princesa Leia e Han Solo e se passaria 20 anos no futuro, apesar de Mark Hamill (Luke) e Carrie Fisher (Leia) terem conversado com Lucas no último verão,  o elenco original já está em uma idade mais avançada, com mais de 60 anos, então especula-se que novos atores ficariam com os papéis e os filmes seriam lançados em 2015, 2017 e 2019. A outra menina dos olhos da Lucasfilm, a série "Indiana Jones", por enquanto continua adormecida, pois não foram anunciados planos para ela no momento, muito provavelmente porque todos os filmes da série só chegaram às telas após um consenso entre George Lucas, Steven Spielberg e o astro Harrison Ford, e o último filme ficou mais de uma década em desenvolvimento até ser aprovado pelo trio, e com Ford agora com 70 anos torna tudo um pouco mais complicado.


De qualquer maneira a noticia deveria ser encarada de maneira mais otimista pelos fãs, afinal a Disney já provou com a Pixar e a Marvel que não se mexe em time que está ganhando, e que ela jamais pagaria uma fortuna pelos direitos de uma franquia bilionária, para destruí-la, ela sabe a força da marca que ela comprou e do legado que "Star Wars" e a Lucasfilm em si representam. Para os fãs resta saber que a Fox ainda detém os direitos de distribuição dos filmes anteriores (do "Guerra Nas Estrelas" original perpetuamente e dos outros 5 longas até 2020) e que todos serão relançados em 3D até 2017, quando a saga completa 40 anos e a nova trilogia estará já em sua metade. Agora é só esperar e que a força esteja como George Lucas e com os novos donos de seu legado.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Crítica - Cowboys & Aliens

Nota: 7,5



Já vou dizer isso logo, “Cowboys & Aliens” é um bom filme, talvez não tão espetacular quanto muitos esperavam, mas ainda assim é um filme que vale a pena ser visto. Talvez ele tenha sido vitima das expectativas criadas antes de seu lançamento, afinal é uma adaptação de uma HQ de sucesso, produzida por Steven Spielberg e Ron Howard (diretor de Apollo 13, Uma Mente Brilhante, O Código Da Vinci), escrito por um dos criadores de Lost e dirigido por Jon Favreau, responsável pelos dois Homens de Ferro, sem falar que marca o encontro do novo James Bond, Daniel Craig, com o eterno Indiana Jones, Harrison Ford, ou seja tinha tudo para ser o filme mais cool do verão, mas não foi bem isso o que aconteceu.





Para se entender melhor vamos a história. Em 1873, no Arizona, um homem chamado Jake Lonergan (Daniel Craig) acorda sem nenhuma memória de seu passado, e com um misterioso bracelete em seu pulso. Ele vai parar na cidade de Absolution, onde descobre que é um criminoso notório e procurado por muitas pessoas, incluindo o Coronel Woodrow Dolarhyde (Harrison Ford), que comanda a cidade com punhos de ferro. Eles enfrentam uma ameaça maior quando a cidade é atacada por uma força misteriosa, vinda dos céus. Enquanto o bracelete de Lonergan guarda o segredo para derrotar os estranhos seres que atacaram e abduziram a população de Absolution, ele deve se aliar ao Coronel Dolarhyde e antigos inimigos para combater as estranhas entidades, contando com a ajuda da misteriosa Ella (Olivia Wilde).





A trama não é complicada e a idéia do filme deve ter realmente causado grande impacto nos executivos que deram sinal verde ao projeto, afinal eles adoram esses “concept movies”, ainda mais pelo titulo do filme em si, que já resume bem o filme, sim, eles adoram tudo o que é fácil de ser resumido e vendido, sem falar que parecia uma coisa bem moderna, e foi ai que ocorreu o grande engano, “Cowboy & Aliens” não é um filme cool e descolado, ele na verdade é a mistura de um western clássico, com uma também clássica invasão alienigena, do mesmo naipe de Independence Day (1996) ou A Guerra dos Mundos (1956, 2005), tendo muito mais elementos do segundo, não que isso seja ruim, mas quando a produção foi anunciada, e lançado do primeiro teaser, parecia que “Cowboys” seria uma versão moderna dessa clássica história de humanos bonzinhos versus aliens malvados, tirando proveito do fato de se passar no velho Oeste, e as pessoas não terem armamento moderno para fazer frente ao perigo que teriam de enfrentar, mas na verdade o que aparece na tela é mais um mash up de Rastros de Ódio (The Searchers, 1956) com Guerra dos Mundos (Não o clássico, mas a refilmagem de Spielberg).






Por isso, o que ocorreu é que o filme acabou alienando sua audiência principal, os adolescentes, afinal são aqueles que mais gastam dinheiro no cinema, e que fizeram de "Harry Potter e As Reliquias da Morte – Parte 2" (Harry Potter and the Deathly Hallows –Part 2) e de "Transformers, O Lado Oculto da Lua" (Transformers, The Dark Of The Moon) os grandes campeões de bilheteria da temporada, talvez se o filme tivesse seguido um rumo menos sério e apostado não só na ação, mas também mais no humor e no nonsense da situação, teria se tornado um grande sucesso.





Mas na verdade o filme quer ser um western sóbrio e imponente como “Os Imperdoáveis” (The Unforgiven, 1992) e tantos outros que tentaram e conseguiram desmistificar o Velho Oeste, como o já citado “Rastros de Ódio”, de quem pega emprestado elementos como a busca por parentes desaparecidos e o preconceitos contra os Indios (Personificado pelo personagem de Harrison Ford), ao mesmo tempo em que a Invasão Alienígena tenta ser séria, como em Guerra dos Mundos, mesmo que o motivo dado pelo filme para sua ocorrência não seja um tão sério assim, mas falando assim você pode me perguntar: Mas você disse que “Cowboys & Aliens” era um bom filme, não disse? E ele é, por mais que ele pudesse ser bem melhor, ele é um bom filme ainda assim e cumpre o que promente, boas cenas de ação e excelentes efeitos visuais, sem falar que seu grande trunfo é a presença de Daniel Craig e Harrison Ford, como antagonistas que acabam virando parceiros, eles conseguem fazer de seus personagens, pessoas mais interessantes de se assistir, especialmente Ford, que mais uma vez nos lembra do grande ator que ele é, na verdade ele precisava só melhorar a escolha dos papéis que vem fazendo, afinal tirando "Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal" (Indiana Jones and The Kingdom Of The Crystal Skull, 2008), seu ultimo sucesso de bilheteria havia sido Revelação (What Lies Beneath) em 2000. Eles também estão bem acompanhado por Olivia Wilde (House, Tron - O Legado), Noah Ringer (O Último Mestre do Ar), Sam Rockwell (As Panteras, O Guia do Mochileiro das Galáxias) e Clancy Brown (Highlander, O Guerreiro Imortal), Brown inclusive sai de cena muito cedo, apesar de ser um dos personagens mais interessantes do filme.





“Cowboys & Aliens” não é tudo o que prometia, mas vale a pena, pelo ótimo elenco, pelos eficientes efeitos visuais, produzidos pela Industrial Light & Magic e por duas horas de puro entretenimento. Na verdade eu particularmente não espero nada além disso de uma superprodução Hollywoodiana, acho que é uma maneira de não se decepcionar com o que assisto e de ocasionalmente ser surpreendido por um filme que ofereça um pouco mais. E Nesse caso não fiquei nem decepcionado e nem fui supreendido.








Cowboys & Aliens, 2011 direção Jon Favreau produção Brian Grazer, Ron Howard, Alex Kurtzman, Damon Lindelof, Roberto Orci, Scott Mitchell Rosenberg produção executive Steven Spielberg e Jon Favreau roteiro de Damon Lindelof, Alex Kurtzman, Roberto Orci, Mark Fergus e Hawk Ostby baseado na História em Quadrinhos de Scott Mitchell Rosenberg musica de Harry Gregson-Williams com Daniel Craig, Harrison Ford, Olivia Wilde, Sam Rockwell, Paul Dano, Noah Ringer e Clancy Brown. Distribuição Dreamworks Pictures, Universal Pictures e Paramount Pictures. Duração 118 minutos. Western/Ficção Científica.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Grandes Filmes: Blade Runner, O Caçador de Andróides

Ficção Científica é um gênero maravilhoso, porém escorragadio, pois dependendo de como for tratado, pode cair na armadilha do ridiculo, sem falar que por causa da evolução tecnológica, que deixa tudo obsoleto, muitas obras de ficção acabam ficando extremamente datadas, sobrevivendo apenas pelo carinho dos fãs e dos nostálgicos, por isso apenas alguns filmes conseguem passar pelo teste do tempo sem perder sua importância, seja por seu apelo visual, seja por sua história, alguns por terem se tornado refêrencia para muitos filmes que vieram depois. “Blade Runner, O Caçador de Andróides” é um desses filmes que sobrevivem ao tempo, sem perder sua relevância, e pensar que quando foi lançado tinha tudo para ser o contrário.


Ele é uma mistura de dois gêneros, o film noir, que fez grande sucesso nas décadas de 40 e 50, e a ficção científica, ele é uma distopia, mostrando uma Los Angeles super poluída e super povoada. Essa mistura de elementos não foi muito bem aceita nem pelos críticos, nem pelo público, afinal o filme foi promovido como uma grande aventura de ficção científica, estrelada por Harrison Ford, saído dos êxitos de “Guerra Nas Estrelas” (Star Wars, 1977), "O Império Contra-Ataca" (The Empire Strikes Back, 1980) e "Os Caçadores da Arca Perdida" (Raiders Of The Lost Ark, 1981), e dirigida por Ridley Scott, do sucesso “Alien, O Oitavo Passageiro” (Alien, 1979), ou seja, ninguém esperava um filme lento, sombrio e pessimista, que aparentemente tinha como atrativo apenas seu visual fantástico. O filme teve um ótimo fim de semana de estréia, arrecadando cerca de US$ 9,0 milhões de dólares (uma ótima cifra em 1982), mas acabou perdendo terreno para filmes mais comerciais e de fácil digestão, como “E.T. O Extra-terrestre” (E.T. The Extra-terrestrial), “Rocky III”, “Jornada Nas Estrelas II, A Ira de Khan” (Star Trek II, The Wrath Of Khan) e "Poltergeist, O Fênomeno" (Poltergeist), arrecadando pouco mais de US$ 27,0 milhões, uma boa quantia, mas muito aquém do esperado.


Para se ter uma idéia de quão diferente o filme deve ter parecido quando foi lançado, tem que se conhecer a sua história, adaptada de um conto do famoso escritor de ficção científica, Phillip K. Dick, conhecido por seus livros extremamente complexos e cerebrais, no caso o livro em questão é “Do Androids Dream Of Eletric Sheep?” (Os Andróides Sonham Com Carneiros Elétricos?). Na trama a humanidade criou seres genéticamente alterados chamados de Replicantes, eles são utilizados na colonização espacial, pois são mais fortes e inteligentes que os humanos, porém após um motim, eles são proibidos na terra sob pena de morte. Para caçá-los são empregados os Blade Runners, Uma unidade de caçadores de andróides. Na Los Angeles de 2019, um grupo de seis Replicantes da geração Nexus-6, fisicamente identicos aos humanos, liderados por Roy Batty (Rutger Hauer) tentam invadir a Tyrell Corporation, a companhia que os criou, após fracassarem e de dois deles serem mortos, Leon (Brion James), um dos sobreviventes, tenta se passar por funcionário, mas é descoberto e quase mata um Caçador de Androide. É então que um Blade Runner aposentado, Deckard (Harrison Ford) é chamado para caçar e exterminar os quatro replicantes remanescentes. Ao visitar a Tyrrell corporation para testar uma Nexus-6, Deckard conhece Rachael (Sean Young), sobrinha do dono da empresa, que não sabe que também é uma Replicante, e ao mesmo tempo em que tem que caçar os replicantes fugitivos, Deckard acaba criando um forte vinculo romantico com Rachael.


“Blade Runner” é um filme que se você não prestar atenção, pode-se deixar passar exatamente sobre o que ele se trata, pois para muitos ele sempre foi uma colagem de imagens, sem uma história que as suportasse, porém para outros ele era o melhor filme de ficção desde "2001, Uma Odisséia No Espaço" (2001, A Space Odyssey, 1968), mas a verdade é que pelo menos em sua versão original lançada nos cinemas, ele ficava no meio termo entre os dois pontos, pois assim como muitos filmes, antes de chegar as telas, ele passou por uma produção complicadissima e por uma intervenção do estúdio que quase destruiu o resultado final.


Desde sua concepção, a produção foi cercada de problemas, inúmeras versões do roteiro foram escritas por Hampton Fancher até ele ser substituido por David Webb Peoples, Fancher via “Blade Runner” como um filme sobre pessoas conversando, o filme se passava em ambientes fechados, e quando Ridley Scott assumiu o projeto, ele resolveu desenvolver melhor o mundo em que a história se passa e contratou Peoples para tornar o filme um pouco menos cerebral e para dar os contornos do que ele veio a ser, balanceando todo o lado de ficção científica, toda a tecnologia, com as perguntas que Phillip K. Dick tentou responder com o seu livro, O que é ser humano? O que significa estar vivo? E talvez esse seja o elemento mais ignorado ao se assistir ao filme, principalmente por quem viu a versão original lançada em 1982, nessa edição ele era sobrecarregado por uma narração em off, que foi imposta pelos produtores, que tentava dar mais respostas e tornar o filme mais fácil de se compreender, mas na verdade isso apenas deixou o filme mais pesado, tirando um pouco da emoção, afinal ao invés de se sentir o que se passava na tela, era contado a você exatamente o que sentir.


Muito disso porque os produtores acharam o filme confuso, obscuro, diferente de tudo o que eles esperavam. Ridley Scott vinha de um momento dificil em sua vida privada, seu irmão acabara de morrer de câncer e quando “Blade Runner” estava em pré-produção, ele estava envolvido com “Duna” projeto que demoraria anos pra chegar às telas, e ele aceitou dirigir “O Caçador de Andróides” como uma maneira de se manter ocupado, na verdade ele acabou fazendo um filme que lida exatamente com o que ele estava passando, uma história sobre tentar prolongar a vida, evitando a morte eminente, mas que ao final acaba se aceitando que é esse o destino inevitável de qualquer ser vivo, e que na verdade viver é algo precioso.


Os Replicantes do filme, tem um tempo de vida de aproximadamente quatro anos e eles buscam uma maneira de evitar sua morte, e na verdade eles se mostram os seres mais humanos de toda a trama, os unicos que entendem o valor da existência, Roy Batty em um dos momentos antológicos do filme, faz um monólogo que resume toda a expêriencia de sua vida em poucas, mas significativas palavras. Ao invés de um filme de ação, o resultado é uma mistura de film noir, com ficção cientifica e uma pitada de existencialismo, algo que não se via no cinema pipoca da época, afinal estamos falando do inicio da era dos Blockbusters, por isso para tornar (pelo menos na cabeça deles) o filme mais palatável, os executivos fizeram Harrison Ford gravar, muito a contra gosto, uma narração que permeia grande parte do filme (ele gravou em um tom assumidamente monótono, para evitar que ela fosse usada, mas foi em vão), e ao verem o resultado final, os executivos resolveram que precisavam de um final diferente, um final feliz, para dar uma sensação de alívio para a platéia, algo que não combinava com 95% do que acontecia anteriormente, e que resultou em algo forçado, inclusive usando material não utilizado por Stanley Kubrick para a abertura de “O Iluminado”.


O filme acabou não encontrando seu público nos cinemas, mas alguns anos depois foi redescoberto no emergentemercado de VHS, onde adquiriu o status de “cult movie” e começou a ser reavaliado pelos criticos, sem falar que se tornou grande influência no visual de inúmeros videoclipes, durante o boom da MTV e do formato, também servindo de inspiração para muitos filmes no futuro. Com o sucesso do filme em vídeo, em 1991, Ridley Scott ganhou a chance de mostrar sua visão original, ele re-inseriu algumas cenas, retirou a narração e o final feliz, deixando o futuro de Deckard e Rachael em aberto, as mudanças só fizeram bem ao filme, inclusive porque o deixou muito mais ambiguo, e levantou outras questões sobre os protagonistas, que foram debatidas à exaustão pelos fãs. Afinal seria Deckard um replicante também? Deixo essa pergunta para vocês responderem.


Em 2007 Ridley Scott voltou ao filme mais uma vez para fazer o que foi chamado de a Versão Final, além das mudanças da versão de 91, ele arrumou pequenos detalhes por todo o filme, coisas que ele não pode fazer na versão original, pois ele teve que encerrar as filmagens as pressas devido aos atrasos no cronograma, e que com a tecnologia digital ele pode fazer, inclusive trazendo Joanna Cassidy duas décadas depois para refazer uma cena crucial e que continha um dos maiores erros de filmagens de que se tem noticia. O filme também foi remasterizado, realçando seu visual incrível, ele foi indicado aos Oscars de Melhor Direção de Arte e Melhores Efeitos Visuais, esse um trabalho incrível do veterano Douglas Trumbull (2001, Uma Odisséia no Espaço, Contatos Imediatos do Terceiro Grau e Jornada Nas Estrelas, O Filme), que continua entre os melhores já realizados, pois foi todo feito com o uso de efeitos fisicos e maquetes.


Porém o que se sobressai nessa versão restaurada é como a história se tornou mais significativa, como o filme é rico em detalhes e nuances, principalmente devido ao trabalho impecável do elenco, Harrison Ford e Sean Young estão ótimos, em interpretações mais contidas, afinal ela é uma máquina e ele um detetive solitário que caça e destrói andróides, e do qual nada se sabe sobre seu passado, em contrapartida há Rutger Hauer, que como Roy Batty, brilha intensamente e é pura emoção, seja em momentos de pura violência ou ao se dar conta da preciosidade da vida, ele e Daryl Hannah como Pris, exalam vitalidade, e são os personagens mais humanos de todo o filme.



Desde 1982 o filme cresceu em significado e importância, de uma extravagância visual, ele finalmente é reconhecido como um filme mais profundo, inclusive mais gratificante de se ver, mesmo que todo o deslumbrante visual, a trilha sonora clássica de Vangelis não tenham mudado, algo nele cresceu com o tempo, talvez por ter se tornado ainda mais atual, é um filme que por mais anos 80 que seja em certos aspectos, tem a qualidade dos grandes filmes, que é ser atemporal.

Para quem quiser ter uma idéia melhor sobre ele, na sua Edição Especial em DVD, vem três discos, uma com a versão final e definitiva, outro com três versões do filme, a original dos cinemas americanos, uma versão internacional e a edição do diretor de 1991, no terceiro disco vem um documentário de mais de 3 horas com os bastidores, mostrando todo o complicado processo de sua produção, desde sua concepção, o lançamento e sua redescoberta. Um verdadeiro banquete para qualquer cinéfilo.




Blade Runner, 1982/2007 direção Ridley Scott producão de Michael Deeley roteiro de Hampton Fancher e David Webb Peoples baseado no livro "Do Androids Dream Of Eletric Sheep?" de Phillip K. Dick musica de Vangelis efeitos visuais de Douglas Trumbull direção de fotogrsafia Jordan Cronenweth com Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Daryl Hanna, Edward James Olmos e Joanna Cassidy. distribuição Warner Bros. duração 117 minutos Ficção Científica.